O Senado Federal aprovou, em dois turnos, a PEC 14/2021, proposta que altera os artigos 40, 198 e 201 da Constituição Federal para criar uma aposentadoria diferenciada aos agentes comunitários de saúde e aos agentes de combate às endemias. A proposta também trata da regularização do vínculo funcional desses profissionais, proíbe, como regra, contratações temporárias e terceirizadas da categoria e estabelece como a União participará do custeio das novas regras. Após a aprovação pelo Senado, a PEC segue para promulgação pelo Congresso Nacional, já que emendas constitucionais não dependem de sanção presidencial.
Poucas horas depois da votação, diversos portais especializados repercutiram a novidade. A manchete que mais chamou atenção foi simples: "Agentes de saúde terão aposentadoria mais cedo." E ela está correta. Mas, como acontece com frequência nas notícias jurídicas, a manchete conta apenas o resultado. A discussão começa justamente quando se tenta entender o que levou o Congresso a aprovar essa mudança e quais efeitos ela pode produzir daqui para frente.
Por que essa PEC existe?
À primeira vista, alguém pode pensar que o Congresso resolveu criar um privilégio para uma categoria específica. Essa costuma ser a reação imediata quando se fala em aposentadoria diferenciada. Afinal, desde a Reforma da Previdência de 2019 o discurso predominante foi de que todos precisariam trabalhar por mais tempo para garantir o equilíbrio das contas públicas.
Só que existe um detalhe que muda completamente a perspectiva.
Os agentes comunitários de saúde e os agentes de combate às endemias exercem uma atividade que dificilmente pode ser comparada a um trabalho administrativo tradicional. São profissionais que percorrem bairros diariamente, visitam famílias, acompanham gestantes, idosos e pessoas com doenças crônicas, orientam campanhas de vacinação, fiscalizam focos de dengue e atuam diretamente na prevenção de problemas de saúde pública. O próprio texto da PEC reforça esse reconhecimento ao tratar essas atividades como essenciais ao Sistema Único de Saúde (SUS).
É justamente esse contexto que explica por que o Congresso entendeu que essas carreiras merecem regras previdenciárias diferentes.
Mas a discussão termina aí?
Provavelmente não.
Sempre que uma categoria conquista um tratamento diferenciado, surge uma pergunta inevitável: onde termina a exceção e onde começa a regra?
Se o fundamento da PEC é o desgaste da atividade, outras profissões também poderão sustentar que enfrentam riscos semelhantes. Enfermeiros convivem diariamente com doenças e longas jornadas. Policiais trabalham sob constante exposição ao perigo. Professores frequentemente apontam o desgaste físico e emocional da profissão. Trabalhadores da construção civil exercem atividades que exigem intenso esforço físico durante décadas.
Cada uma dessas categorias possui argumentos que, vistos isoladamente, fazem sentido.
É nesse momento que o debate deixa de ser apenas previdenciário e passa a ser constitucional. Afinal, tratar igualmente pessoas que vivem realidades completamente diferentes pode gerar injustiça. Por outro lado, criar exceções sucessivas também desafia o equilíbrio financeiro do sistema previdenciário.
A manchete esconde outros pontos importantes
Grande parte das notícias destacou apenas a redução da idade para aposentadoria. Mas a PEC vai além.
Ela estabelece regras permanentes e de transição, prevê a regularização dos vínculos de milhares de agentes, estende as novas regras aos agentes indígenas, assegura integralidade e paridade em determinadas situações e define a participação financeira da União para compensar os impactos da medida. Além disso, a proposta altera a forma de contratação desses profissionais, buscando reduzir vínculos precários e fortalecer sua atuação dentro do SUS.
Percebe como a discussão é muito maior do que simplesmente "aposentar mais cedo"?
Talvez a maior contribuição da PEC 14/2021 não seja reduzir a idade para aposentadoria de uma categoria.
Talvez seja obrigar o país a revisitar uma pergunta que nunca foi totalmente respondida: todas as profissões devem seguir exatamente as mesmas regras previdenciárias ou algumas atividades, pela própria natureza do trabalho, merecem tratamento diferente?
Não existe uma resposta simples.
O Congresso deu a sua resposta para os agentes comunitários de saúde e para os agentes de combate às endemias.
Agora resta saber se essa decisão encerrará a discussão... ou se abrirá caminho para que outras categorias também batam à mesma porta.

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